Uma vitrola e uma carta de amor
O telefone velho de discar, o ferro de passar roupa de carvão usado para segurar
a porta, a lamparina antiga em cima da estante. O antigo tem um fascínio que só
quem sofre do mesmo encantamento pode entender. É uma beleza singela,
despretensiosa que, muitas vezes, é preciso tirar a poeira para enxergar.
Ao segurar os discos, um sentimento especial. Sentimento de coisa guardada, de lembrança boa que há muito tempo não é mexida, de saudade... Sanada dias depois, quando, por fim, a vitrola chegou, via correio, quase que na velocidade do clique da compra, para ouvir tantos sentimentos reservados.
O vinil tem isso. O ruído de fundo que só uma bolacha pode proporcionar. E quando minha mãe resolveu fazer uma faxina e por os vinis no lixo, meu coração
disparou. Não! Eu gritei pra mim mesma ao telefone. Para ela disse: guarda, que
vou passa e buscar.
Passada uma semana eu ainda não havia ido. Na correria do
dia a dia, a vida em velocidade digital, em uma corrida desenfreada de dados,
atropela o ritmo da agulha. Mas diante da ameaça de por fora, dei uma freada e
fui.
Ao segurar os discos, um sentimento especial. Sentimento de coisa guardada, de lembrança boa que há muito tempo não é mexida, de saudade... Sanada dias depois, quando, por fim, a vitrola chegou, via correio, quase que na velocidade do clique da compra, para ouvir tantos sentimentos reservados.
Para a estreia da vitrola, fui limpando disco a disco, tirando a sujeira de anos de armário. A
surpresa foi uma carta de amor, endereçada a alguém muito especial. Pensei: será
que ele viu? Será que se casaram? Será que namoraram? Ou essa carta veio de
algum sebo?
Nas primeiras linhas dizia: en tu mirada y en tu sonrisa aguardaré
bellas recordaciones y con placer en conocerte y hacer contigo esta amistad
llena de amor.
Uma carta de alguém que não teve coragem de se declarar.
Já no início dizia que iria guardar na lembrança o olhar e o sorriso como recordações
que levaria para a vida toda. O amor, ah o amor, não importa o tempo que passe,
ele sempre deixa a vulnerabilidade à mostra. E o medo da rejeição escrita em
tinta azul de 30 anos atrás mostra que ele não mudou nada.
Depois de ler, ouvi o
disco e pensei nos amores que também deixei para trás, nas cartas que escrevi, e
muitas que sequer entreguei, o medo paralisa, mas pior que o medo, é deixar
sentimentos virarem apenas palavras que outro irá ler sem sequer entender.


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