Apanhei muito e não morri! Será?
Quem nunca ouviu a frase: apanhei muito e não morri. Usada para justificar a violência contra filhos, a afirmativa é carregada de subjetividades que, muitas vezes, as pessoas não param para pensar.
A morte nem sempre é física. A morte também é tristeza no coração. Quantos não sentem uma dor tão terrível que têm dificuldades em se relacionar, em se expressar, em dizer o que sentem no fundo da alma?
A violência destrói a autoestima. Faz a pessoa desacreditar na capacidade de gostar dela mesma, tanto por dentro, quanto por fora. A dificuldade que muitos enfrentam, hoje, nos relacionamentos com os pais, pode estar liga à violência.
A dificuldade de expressar sentimentos. De olhar dentro dos olhos e dizer o que vem do coração. A frieza com que tratam outros seres humanos, com certeza, veio do apanhei e não morri.
Se amar e se valorizar está diretamente ligado ao fato de não deixar que situações de desrespeito e violência façam parte das nossas vidas. Na psicanálise, Sigmund Freud descreveu que a autoestima expressa o tamanho do ego. Tudo o que o sujeito possui ou realiza o ajuda a aumentar a autoestima. E quando seu ego é ferido desde muito cedo?
Não morri quando apanhei, mas hoje preciso curar a infância violenta na terapia, na medicação e em tantas situações que levaram a não acreditar em mim. O apanhar não é só levantar a mão. O apanhar também são palavras que nunca deveriam ser ditas. Palavras que humilharam, que fizeram você achar que era menos que o seu amigo, que fizeram você pensar que não era merecedor.
O apanhar é o julgamento por ser baixo, por ser alto, por ser magro, por ser gordo, por usar aparelho dentário, por usar óculos. Por ser diferente do coleguinha padrão.
Por isso é tão importante não apanhar e não morrer. Será que seríamos mais amorosos se tivéssemos recebido amor em vez de tapas?
A violência não é natural e maltratar uma criança menos ainda. Violência não é educar, é exatamente o contrário. Na hora da raiva, do ódio, o melhor é se afastar. Esperar que a calma venha e só depois agir. Fazemos isso o tempo todo com os adultos, por que não com as crianças?
Ninguém veio ao mundo só para ser um sobrevivente. Quem sofre violência não deixa de amar o outro, deixa de amar a si mesmo. Então, parem de normalizar a violência!
(Texto inspirado no post "Apanhei muito e não morri", da página do facebook Sozinha, solitária e vazia)


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