Acessibilidade: questão de respeito e aceitação

Se o lugar não está pronto para receber TODAS as pessoas, o lugar é deficiente. (Thais Frota)

O direito de ir e vir é de todos e está garantido na Constituição Federal. Entretanto, na prática, nem sempre é assim. Quem não tem nenhuma necessidade particular tem sim seus direitos garantidos já aqueles que precisam de um degrau mais baixo, de sinais sonoros, de pisos especiais para se locomover enfrentam diariamente exercício de paciência e superação.

A lei da acessibilidade (Lei 10.098/00) completou 11 anos, e apesar de muitas mudanças já terem ocorrido, há muito ainda o que fazer. Em Campo Grande vemos obras para todos os lados, em cada esquina há uma calçada sendo quebrada para implantação do piso tátil. A questão é: isto está sendo feito direito?

A vice-presidente da Organização Nacional de Cegos do Brasil e presidente do Instituto Sul-Mato-Grossense para Cegos (Ismac), Telma Nantes de Matos, diz que o que eles precisam é do acesso sem obstáculos. “Quando falamos em acessibilidade falamos em um acesso sem barreiras”, enfatiza.

Sem barreiras, quer dizer, poder andar sem ter um poste no meio do caminho, sem ter uma árvore no meio do caminho, pois ‘pedras no meio do caminho’ funcionam bem no poema de Drumond, mas na vida real, onde pessoas de todos os tipos de necessidades transitam não tem a menor graça.

Como desviar dos obstáculos se não se pode vê-los? É para isso que os cegos lutam, para ter o direito de ir e vir com segurança.

Fiscalização

A presidente do Ismac questiona. Quem fiscaliza isso? Como isso está sendo feito? Segundo ela, em muitos lugares da cidade os pisos tácteis estão sendo colocados sem seguir as normas da ABNT. “Não adianta ir colocando, tem que seguir a regra”, diz.

Telma ainda brinca: Se uma mulher de salto alto não consegue andar pelas calçadas de Campo Grande imagina uma cega?

E tem que ter bom humor mesmo para enfrentar a rotina de transitar na cidade. A reportagem fez um passeio com o funcionário público, Edson Divino, que também é cego. A equipe foi até o inicio da Júlio de Castilho e andou cerca de 4 quadras para perceber as dificuldades que ele enfrenta diariamente.

Rindo, Divino dizia que a ‘calçada é uma miséria’. É uma boa palavra para definir a situação do local. Calçada curta, esburacada, desnivelada, com poste muito próximo a passagem...Ou pior, calçada, que não dá para transitar. (ver fotos)

Preconceito

Edinho, que nasceu vidente, perdeu um olho aos 7 anos e o outro aos 16, conta que além das dificuldades em se locomover é preciso ter bom humor para enfrentar o preconceito.

“Esses dias uma mulher me perguntou como eu poderia ter um filho se sou cego. Eu disse a ela que para namorar a gente apaga a luz”.

Além das barreiras físicas, é preciso enfrentar as pessoas. Acessibilidade também é educação, é respeito pelo próximo independente de sua condição.

O funcionário público mora sozinho, cozinha, lava, passa, escolhe suas roupas e faz tudo como qualquer outra pessoa conta que teve que reaprender a viver com sua nova condição.

“Claro que não foi fácil, foi um processo de aceitação. Mas, hoje faço tudo como qualquer outra pessoa. A diferença é normal em todo o ser humano, variando apenas o tipo de grau, pois ninguém é perfeito”, diz sabiamente.

Custos

Para colocar o piso tátil não é barato. Além do custo da mão de obra do pedreiro, que está alta, devido ao crescente aumento da construção civil no estado. As peças são cobradas individualmente.

Cada peça de alerta e direcional com a medição de 20cm x 20cm, sai a R$1,50. Já as mesmas peças, com medição de 40cm x 40cm sai a R$4,50. O preço total depende do tamanho da calçada.

Curiosidade

Japão trouxe a novidade para o mundo, implantando os pisos nas plataformas de trens e metrôs com a intenção de alertar os usuários o limite das plataformas e assim evitar acidentes.

O piso tátil é diferenciado com textura e cor sempre em destaque com o piso que estiver ao redor. Deve ser perceptível por pessoas com deficiência visual e baixa visão. Pode parecer abstrato para as pessoas que enxergam, mas para o deficiente visual e a pessoa com baixa visão este piso é fundamental para dar autonomia e segurança no dia a dia.
Existem dois tipos de piso tátil: o piso tátil de alerta, que é conhecido popularmente como “piso de bolinha”. E o piso tátil direcional que tem a função de direcionar e orientar o trajeto.

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